segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Excesso de “birra” sugere transtorno psíquico



Alterações comportamentais podem ser úteis no diagnóstico de depressão e outros distúrbios

Ataques de raiva freqüentes e intensos em crianças de 3 a 6 anos podem ser sinal de distúrbios psíquicos, aponta estudo da Universidade de Washington publicado no Journal of Pediatrics.

Participaram da pesquisa 270 crianças que foram acompanhadas por três anos; metade delas tinha diagnóstico de depressão ou psicose infantil, o restante era saudável. Embora esse tipo de ataque seja comum nessa faixa etária, certas características apareceram com mais freqüência no primeiro grupo. 

Os pesquisadores observaram crises mais agressivas nas crianças com transtornos psíquicos, sendo a violência muitas vezes dirigida intencionalmente contra elas próprias. A duração foi maior nesses indivíduos, ao passo que no grupo saudável os ataques duraram pouco mais de dez minutos. “Reconhecer essas alterações comportamentais pode ser muito útil nos diagnósticos da depressão e outros distúrbios psiquiátricos nessa faixa etária, em que as crianças não conseguem descrever seus sentimentos”, afirmam os autores.


Fonte: revista Mente e Cérebro.

domingo, 25 de novembro de 2012

Como nasce o mal

Contrariando estudos clássicos, pesquisa mostra que pessoas que cometem atos cruéis a mando de autoridades não o fazem por obediência cega, mas por acreditarem estar fazendo a coisa certa.

Grande parte da compreensão sobre como pessoas normais se comportam em ditaduras vem de estudos realizados nos anos 1960 e 1970. A Segunda Guerra Mundial ainda estava viva na lembrança e cientistas de todo o mundo tentavam explicar os horrores vistos na Alemanha nazista, onde cidadãos comuns — até mesmo exemplares — cometeram atos de extrema crueldade a mando do governo. Pesquisas clássicas lideradas pelos psicólogos americanos Stanley Milgram e Philip Zimbardo mostraram que o mais pacato dos seres humanos poderia cometer atos terríveis se assim lhe fosse ordenado pelas autoridades, pois teríamos uma tendência inata à obediência e à submissão.


Um novo artigo publicado na edição desta semana da revista PLOS Biologyrevisita as conclusões desses estudos e afirma que as pessoas que agiram daquela maneira não eram apenas motivadas pela obediência cega, mas também demonstravam entusiasmo ao realizar atrocidades. Pessoas capazes de cometer atos cruéis não são penas receptoras passivas de ordens; elas também se identificam com autoridades abusivas, e acreditam estar fazendo a coisa certa mesmo quando são violentas.

Essa discussão começou no início da década de 1960, logo após o julgamento de Adolf Eichmann, um burocrata nazista que ajudou a elaborar os planos de extermínio de judeus. Eichmann, que conseguiu se esconder durante dez anos na Argentina, estava sendo julgado por ter ajudado a transportar milhões de pessoas para os campos de concentração. No entanto, o que espantou os pesquisadores da época é que ele parecia ser um sujeito normal, que apenas cumpria ordens de autoridades — mesmo que essas ordens implicassem no genocídio. No livro Eichmann em Jerusalém, a filósofa alemã Hannah Arendt cunhou a expressão "banalidade do mal" para explicar por que grandes crimes da humanidade não foram cometidos por monstros, mas por gente comum que aceita ordens superiores. Nos anos seguintes, a tese de origem a um grande número de pesquisas sobre o assunto.

Autoritarismo de laboratório — Em 1963, Stanley Milgram conduziu um experimento para comprovar a ideia de que pessoas comuns obedeciam de modo cego às ordens das autoridades. Pesquisador da Universidade Yale, ele convocou 40 voluntários para participar do estudo, mas avisou apenas que iriam fazer parte de um teste de memória. Todos foram designados para a posição de "professor" e instados a ajudar um segundo voluntário, que seria o "aluno", a memorizar uma série de palavras. A cada palavra errada, deveriam aplicar um choque elétrico no aluno. Os choques começavam leves, com apenas 15 volts, mas cresciam a cada resposta errada até atingir o valor de 450 volts, que pode ser mortal para um ser humano.

O que os voluntários não sabiam é que o homem respondendo às perguntas era um ator, e os choques não eram reais. Milgram não estava interessado na memória, mas em quão longe os voluntários iriam ao aplicar os choques elétricos. E eles foram longe: todos os participantes deram choques de até 300 V. Desses, 65% não pararam de aplicar os choques até atingir os 450 volts – mesmo com os atores fingindo extremo sofrimento. Segundo o psicólogo, o experimento mostra que pessoas normais estariam dispostas até a matar um completo estranho simplesmente por terem recebido a ordem de uma autoridade.

Já o estudo realizado por Philip Zimbardo na Universidade de Stanford, em 1971, buscou analisar como as pessoas estão dispostas a assumir papéis abusivos se esses lhes forem designados por autoridades. Zimbardo escolheu 24 voluntários, e os separou de modo aleatório em dois grupos: guardas ou prisioneiros. Eles foram colocados dentro de uma falsa prisão construída no Departamento de Psicologia da universidade, e os guardas instruídos a agir do modo que fosse necessário para manter o controle.

Seu objetivo era observar a interação entre os dois grupos, e ver como se comportariam sem uma autoridade por perto. Os resultados foram chocantes. Os guardas começaram a agir de modo tão abusivo e violento que o estudo precisou ser interrompido depois de apenas seis dias. Zimbardo concluiu que os voluntários assumiram um comportamento autoritário porque se adequaram de modo automático ao papel que lhes foi designado, mesmo sem receber ordens específicas para isso. Segundo o psiquiatra, a brutalidade era apenas uma consequência da representação do papel de guarda e da pressão do resto do grupo.

Tanto o estudo de Milgram quanto o de Zimbardo se tornaram referências na área. Falavam sobre a natureza humana e a submisso do homem à autoridade — e ambos deram origem a filmes, documentários e livros diversos.

Fé na autoridade — No entanto, o novo artigo escrito por Alex Haslam, psicólogo da Universidade de Queensland, na Austrália, publicado na PLOS Biology, questiona o resultado de ambos os trabalhos e nega o fato de a obediência à tirania resultar da submissão cega às regras e aos papéis estipulados. Haslam afirma que esses seguidores não são passivos, mas criativso, e suas ações brotam do fato de eles se identificarem com as autoridades e acreditarem em suas premissas. "Pessoas decentes participam de atos horríveis não porque se tornam funcionários negligentes que não sabem o que estão fazendo, mas porque eles começam a acreditar — normalmente sob a influência de uma autoridade — que estão fazendo a coisa certa", diz o pesquisador.

A tese de Haslam foi formulada a partir de um experimento que ele conduziu em parceria com a rede de televisão inglesa BBC em 2002. Ele replicou o experimento da prisão feito por Zimbardo, mas garantiu que não houvesse nenhuma interferência por parte dos pesquisadores e os guardas não soubessem, a princípio, como deviam agir.

Dessa vez, os voluntários demoraram muito mais tempo para assumir seus papéis. Os prisioneiros foram os primeiros a se identificar como um grupo, e encontraram um modo de resistir à autoridade dos guardas, criando um sistema mais igualitário na prisão. Segundo Haslam, isso mostra que as pessoas não se submetem automaticamente aos papéis que lhes são incumbidos, e que elas podem resistir a esses papéis quando não gostam das consequências.

Com o passar do tempo, no entanto, uma parte dos guardas e dos prisioneiros passou a acreditar que a situação estava fugindo do controle e conspirou para criar uma nova hierarquia na prisão. No final, o experimento desencadeou o mesmo tipo de abusos que o realizado nos anos 1970 por Zimbardo. Mas, segundo Haslam, isso não aconteceu porque os voluntários aceitavam cegamente o papel de guarda. Ao contrário, foi só quando os indivíduos passaram a acreditar no novo papel, e a se entusiasmar com as ações, que a nova ordem autoritária se impôs.

Para o psicólogo, o estudo de 2002 demonstrou que aqueles que obedecem à autoridade não o fazem de modo cego, mas de modo ativo. O fazem por escolha e não necessidade e, por isso deveriam ser vistos como seguidores engajados, e não conformistas cegos. Ao analisar o estudo de Stanley Milgram, Haslam diz que os voluntários só aceitaram aplicar os choques porque acreditavam e se identificavam com os objetivos científicos do pesquisador.

Sob esse ponto de vista, Adolf Eichmann, o burocrata nazista, tinha total conhecimento das consequências de seus atos. "Esses burocratas sabiam muito bem o que faziam, mas acreditavam que isso era a coisa certa. Matar pessoas inocentes é difícil, e requer um grande nível de convencimento. Era a fé no regime nazista que lhes permitia fazer isso", diz Haslam em entrevista ao site de VEJA. Para o psicólogo, o alemão não era apenas um funcionário obediente e passivo, mas um participante ativo no massacre de judeus. A corte que julgava Eichmann concordou com essa visão: ele foi considerado culpado de uma série de crimes, incluindo crimes contra a humanidade, e enforcado em 1962 em Israel.

"Se as pessoas apenas seguissem ordens, as tiranias não chegariam a lugar nenhum. Esses regimes contam também com o entusiasmo e fé de seus seguidores" (Alex Haslam)


Seu artigo questiona o resultado dos experimentos de Stanley Milgram e Philip Zimbardo. Quais seriam os erros na pesquisa de Milgram? Eu discordo da ideia de que as pessoas aplicando os choques estão simplesmente seguindo ordens. Na verdade, elas estão trabalhando duro, confrontando uma situação muito desconfortável, para tentar fazer a coisa certa e ajudar no avanço da ciência. Eles acreditam nisso. Não são zumbis ou autômatos, mas pessoas que acreditam estar participando de uma tarefa significSativa. Quando alguns pensadores falam sobre o mal, eles se referem a uma espécie de ladeira escorregadia, pela qual as pessoas deslizam por inércia, sem pensar no que estão fazendo. Não é esse o caso. Os participantes estavam lutando duro – aplicar choques em seres humanos não é uma atividade facilmente digerível – para ir até o fim da experiência.

Essa conclusão pode ser usada para analisar o comportamento de pessoas que vivem sob tiranias? É claro. Muitos historiadores vêm tentando entender o comportamento dos burocratas no regime nazista. Não é o caso de dizer que eles só obedeciam a ordens. Esses burocratas sabiam muito bem o que faziam, e acreditavam que era o certo. Matar pessoas inocentes é difícil, e requer um grande nível de convencimento. Era a fé no regime nazista que lhes permitia fazer isso.

Em 2002, o senhor realizou um experimento muito semelhante ao de Zimbardo, mas chegou a conclusões diferentes. Por que isso aconteceu? Na verdade, nossos experimentos atingiram resultados muito semelhantes. No entanto, ficou muito claro para mim que esse resultado não foi atingido simplesmente porque os guardas se conformaram ao seu papel. Em nossa prisão, o sistema original falhou porque uma parte dos guardas não se identificou com o papel. A cadeia viveu uma espécie de hiato, no qual nada funcionava. Foi aí que um grupo de prisioneiros e guardas se juntou e decidiu que precisavam de um regime mais autoritário. Foi só quando eles passaram a acreditar que essa era a solução para seus problemas que estabeleceram o novo regime. As pessoas não entram naturalmente nesse tipo de situação e começam a brutalizar os outros. Elas só fazem isso quando acreditam que essa é a coisa certa para se atingir um objetivo. Isso pode ser visto em grande parte das tiranias.

Em que tipo de situação isso acontece? As pessoas não são tirânicas porque isso lhes é ordenado. Elas têm de se identificar com a causa. Por exemplo, ninguém estava ouvindo o que Hitler tinha a dizer no começo dos anos 1930. Foi só anos depois, quando os alemães começaram a acreditar que o nazismo tiraria a Alemanha de uma situação difícil, que alguns deles – os mais comprometidos com a ideologia – se tornaram capazes de agir como agiram.

Então os indivíduos que seguem as ordens são ideologicamente comprometidos como a tirania? É isso. Quando procuramos o que dá energia e dinamismo para a tirania, não vamos encontrar pessoas que seguem ordens cegamente. As organizações autoritárias só se sustentam porque alguns indivíduos se identificam com elas, acreditam em seus pressupostos e trabalham duro para atingir seus objetivos. Se as pessoas apenas seguissem ordens, esses regimes não chegariam a lugar nenhum.

Fonte: Revista Veja. Guilherme Rosa

A frágil fronteira da razão

Bruno Abbud

Portadores do transtorno de personalidade conhecido como borderline são excessivamente impulsivos, intolerantes e não suportam o abandono. A automutilação e o suicídio são maneiras que o boderliner encontra para extravasar um sofrimento insuportável.


Olhos claros, entre o azul e o verde, cabelos castanhos e pele branca, Marina, de 29 anos, é portadora do transtorno borderline desde a adolescência. No depoimento abaixo, descreve como se sente quando passa por uma crise:

“Quando entro numa crise, o que mais me incomoda é a sensação de não existir. É como se não houvesse motivos pra eu viver. Um vazio, uma angústia. Nada ao meu redor parece ter cor. Tudo é cinza. Sinto as coisas em câmera lenta. No entanto, meus pensamentos ficam exageradamente rápidos. Sinto uma grande ansiedade, uma incômoda agitação interna. Minha mente fica tão acelerada que, depois do fim da crise, sobra uma grande confusão mental. Algumas vezes, chego a esquecer das situações que passei. Em outras, não consigo identificar se aquilo aconteceu ou se foi um sonho. Mesmo a noção de tempo parece confusa. É como se estivesse em queda livre, num buraco escuro, frio, úmido, sem fim, com muitas imagens passando pelos meus olhos e vozes e sons, vários, zumbindo nos meus ouvidos sem parar. Procuro evitar aquela avalanche de informação, agarrar-me em alguma coisa. Mas não consigo encontrar nada para me amparar. Fico verbalmente agressiva, irritada com qualquer um ou qualquer coisa, impaciente. Sinto-me atacada, invadida a todo momento e, então, ataco de volta. Existe uma variação muito grande de humor. Pelo menos comigo, em toda crise, o pensamento de suicídio é recorrente. E a sensação de falta de esperança também. As duas piores coisas ao sair de uma crise são a vergonha e o medo da recaída”.

Gustavo, de 26 anos, saltou o muro de um estacionamento em São Paulo, entrou no carro e, ao perceber que estava trancado, acelerou na direção do portão. Ele é excessivamente impulsivo. No dia em que a namorada se recusou a dormir em seu apartamento, estilhaçou uma janela de vidro com o punho. Ele é intolerante. Quando terminou outro relacionamento, Gustavo quis se matar. Ele não suporta o abandono. Depois de uma briga com o pai, tentou enforcar-se com uma linha de nylon. Gustavo sofre demais. A soma dessas características indicam que ele é, sobretudo, uma pessoa doente. Diagnosticado no fim de 2010, tem transtorno de personalidade limítrofe, ou, na sigla em inglês, borderline..

Os sintomas indicam que era essa a doença da advogada Giovana Mathias Manzano, de 35 anos, cujo drama foi revelado numa reportagem de VEJA publicada na edição de 13 de julho. Giovana foi encontrada morta em Penápolis, no interior de São Paulo, depois de ter encomendado o próprio assassinato. Sem coragem para cometer suicídio, a advogada contratou um pistoleiro que disparou três tiros contra sua cabeça. Um médico da cidade chegou a classificá-la como portadora do transtorno borderline, mas o diagnóstico não foi unânime entre os especialistas.

Embora o termo borderline (a palavra significa “fronteiriço”) tenha sido cunhado em 1938 pelo psicanalista americano Adolph Stern – ele concluiu que os pacientes portadores de tal transtorno psiquiátrico estavam no limite entre a neurose e a psicose –, foi só na década de 1980 que o diagnóstico da doença se tornou mais preciso. Até então, muitos médicos acreditavam, equivocadamente, que a personalidade de uma pessoa era imutável.

Ao estudar imagens do cérebro e fazer testes em animais, o psiquiatra americano Robert Cloninger provou que a personalidade é a união entre o temperamento e o caráter. “O temperamento é herdado”, explica o psiquiatra Erlei Sassi, coordenador do Ambulatório dos Transtornos de Personalidade e do Impulso do Hospital das Clínicas. “Filho de Pittbull tem tudo para ser um pittbulzinho. Já o caráter é relacionado ao aprendizado, é formado pelo ambiente em que a pessoa vive”. De acordo com Sassi, que estuda o transtorno borderline há 15 anos, o conflito entre o temperamento e o caráter pode gerar uma personalidade problemática. É o caso, por exemplo, de uma criança extremamente perfeccionista que cresce em uma família desorganizada. O convívio levaria a uma frustração constante.

A personalidade começa a ser formada entre o fim da adolescência e o começo da idade adulta. “É nesse momento que os primeiros sintomas de um borderline costumam aparecer”, conta Sassi. O comportamento de uma pessoa, informa o psiquiatra, só configura um transtorno a partir do momento em que o indivíduo gera sofrimento para si e para os outros.

Neste ano, Gustavo tentou suicidar-se quatro vezes. Os braços riscados por cicatrizes evidenciam um dos mais aflitivos sintomas da doença: a autoflagelação. Há quatro meses, por volta das 4 horas da madrugada, deitado na cama, o rapaz telefonou para a mãe, que dormia no quarto vizinho. “Desta vez, acho que eu vou”, disse, com voz pastosa. Ela se levantou num pulo e correu para socorrer o filho. A cena assustou. Ele estava prostrado sobre uma poça de sangue. Os pulsos mutilados e as cartelas vazias do ansiolítico alprazolam caracterizavam a quarta e última tentativa de suicidio.

A versão mais recente do Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM-IV) – o guia das doenças psiquiátricas publicado pela Associação Americana de Psiquiatria –, descreve o transtorno borderline com nove sintomas: esforços desmedidos para evitar um abandono real ou imaginado; relações interpessoais instáveis e intensas; autoimagem instável; impulsividade em excesso; automutilação e tentativas recorrentes de suicídio; mudanças de humor constantes e extremas; sentimentos crônicos de vazio; acessos incontroláveis de raiva sem motivos aparentes; e episódios de paranoia. Os mesmos sintomas são apontados pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicação da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A família - Para familiares, amigos e leigos, o sofrimento que leva um borderliner a tentar se matar é incompreensível. Segundo Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, a automutilação e o suicídio são maneiras que ele encontra para extravasar um sofrimento insuportável. “O boderliner não suporta ficar só”, explica. “Faz qualquer esforço para não ser abandonado e está sempre se queixando de vazio, de uma falta de sentimento de identidade”. Fernanda Martins, psiquiatra e médica-assistente do Ambulatório dos Transtornos de Personalidade do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, conta que a família do borderliner enfrenta uma dor tão terrível quanto a do paciente. 
Desde as últimas crises de Gustavo, qualquer barulho estranho dentro de casa faz com que sua mãe, Tereza, interrompa a respiração involuntariamente. Falta ar. Ela passou a acordar tarde, a deixar compromissos de lado e a fumar. Não dorme enquanto o filho permanece acordado. O som dos passos durante a noite, o ruído acelerado das teclas do computador, o toque característico do celular, tudo que emerge de Gustavo aflige Tereza, que decidiu grudar pequenos folhetos com orações pelas paredes do apartamento. Enquanto assistia ao filme 2012, uma ficção que descreve como seria o apocalipse, um irmão de Gustavo notou que a mãe parecia simpatizar com a ideia do mundo acabar no próximo ano. 
Gustavo passou por uma dezena de psiquiatras e psicólogos até descobrir do que sofria. O diagnóstico de transtorno borderline demorou quatro anos. Hoje, o rapaz se concentra no tratamento com remédios e psicoterapia. Há seis meses, não passa por uma crise.
A Cura - “Os borderliners melhoram com a idade”, afirma o psicanalista Mauro Hegenberg, autor do livro Borderline. Fernanda Martins reforça a tese: “Os sintomas tornam-se mais amenos depois dos 40 anos”, diz. “Mas se o paciente não for tratado, quando chega a essa idade não se casou, não teve filhos, não se formou, não parou em nenhum trabalho. Tem uma vida tão vazia que acaba caindo em depressão”. Com tratamento, é possível – e muito provável – controlar os sintomas até que desapareçam.
Hegenberg observa que o diagnóstico do borderline é complexo. “O psiquiatra que se baseia apenas nos sintomas incluídos no DSM pode errar”, diz. “É comum confundirem a doença com o transtorno bipolar, por exemplo”. Além do diagnóstico difícil, os médicos precisam saber lidar com os pacientes. “É um atendimento que demanda muita energia”, observa Hegenberg. “Você tem que deixar o celular ligado e estar à disposição 24 horas por dia. Já atendi a muitos telefonemas de pacientes que estavam à beira de um suicídio”. Por que decidiu especializar-se num transtorno tão complexo? “O borderliner é muito cativante”, explica Hegenberg. “São pessoas interessantes, inteligentes, cheias de vida e com uma personalidade extremamente sedutora”. 
Fonte: Revista Veja

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Burnout: quando o trabalho se transforma em doença

O burnout é o estado de exaustão emocional, com descrença na utilidade da função que se exerce e baixa realização

Há mais de um ano que Tânia toma anti-depressivos. Os ansiolíticos também entraram na sua vida, servem para dormir e para controlar as arritmias provocadas pelo stress. Alexandra sente-se muitas vezes irritada, incapaz de conseguir estudar. Acha que nunca vai conseguir ser independente e já pensou em desistir do curso.

Tânia e Alexandra sofrem de burnout, ou seja, de um “estado de exaustão emocional, com descrença na utilidade da função que se exerce e baixa realização, havendo uma diminuição da eficácia devido à falta de empenho, podendo levar ao abandono da profissão”, explica João Marôco, autor do estudo “Burnout em estudantes universitários: determinantes e consequências", apresentado em Lisboa nesta quinta-feira.


Segundo o inquérito feito em Portugal e no Brasil, em parceria com a professora Juliana Campos, que aplicou o mesmo aos estudantes de São Paulo, 15% dos alunos universitários lisboetas estão em estado de burnout.

Com 21 anos, Tânia Viegas estuda na Universidade Nova de Lisboa e confessa que já esteve “três meses bebendo um copo de leite de manhã e lanchando à noite e, durante o dia, só café”. Por causa do stress parecia que tinha “uma bola no estômago” que não lhe permitia comer, descreve.

João Marôco, professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) afirma que “quando o cansaço provoca baixa eficácia nos estudos, o consumo de café, medicação, tabaco, álcool ou drogas é a solução mais imediata para não quebrar o ritmo, e é uma das consequências do burnout. De acordo com os resultados do estudo, 32% dos alunos inquiridos recorrem às vezes a medicação devido aos estudos, e 3,5% fá-lo com frequência. 

Os dados foram recolhidos no ano lectivo de 2009/2010, em inquérito a 486 alunos de ambos os sexos, de universidades públicas e privadas de Lisboa e de todas as áreas de estudo. Hoje os resultados seriam diferentes? “A conjuntura financeira actual faz-me crer que a percentagem de estudantes com burnout que verificamos no estudo já deve ter aumentado”, calcula o investigador.


Condições precárias

Aluna na Universidade Técnica de Lisboa, Alexandra Guerreiro confessa que já chorou e pensou que nunca conseguirá sair da casa dos pais por causa da crise econômica. Irrita-se com frequência, sobretudo quando não consegue estudar. “O meu irmão mais novo está constantemente  desconcentrando-me quando estou estudando. Ao fim-de-semana, é impossível porque só se ouve os meus pais a ralharem com ele”, acusa a jovem de 21 anos.

Mas o mal estar também se sente quando está na escola. Há professores que “não têm paciência para explicar”, lamenta. “Houve um semestre em que quis desistir do curso porque tinha tantos trabalhos e frequências ao mesmo tempo que baixei as notas”, admite.

Com a introdução do processo de Bolonha, o professor passou a ser um orientador dos estudos e há mais trabalhos para apresentar, confirma João Marôco que aponta que a exaustão emocional elevada revelou-se em 21% dos estudantes inquiridos, e que a baixa eficácia, culminando em piores resultados, se verificou em 56%.


Professores mais expostos

Não são só os alunos que sofrem de burnout. Os professores também:. “O burnout dos professores é uma das causas do burnout nos alunos”, frisa João Marôco.  O fenômeno tem sido investigado nos docentes, que “estão cada vez mais expostos a factores de stress”, refere o autor deste estudo e professor universitário.

Renato Albuquerque ainda gosta da profissão mas este professor de 53 anos confessa já não investir o que devia por não se sentir recompensado. Diz sentir “uma grande instabilidade” devido a todas as medidas que vão sendo tomadas pelo Ministério da Educação. “As salas estão cada vez mais cheias de alunos, e depois pedem para explicar [a matéria] várias vezes. À terceira, já perdi a paciência”, revela o professor do ensino secundário.

De acordo com Rui Gomes, professor na Escola de Psicologia da Universidade do Minho, este é um sinal de burnout. “A mudança no estatuto da carreira docente contribuiu para o aparecimento do burnout nos professores”, afirma. Estes deixam de olhar para os alunos como pessoas, tratando-os como objetos, clarifica.Outra das características do burnout é o absentismo: “o professor deixa de dar aulas”, aponta João Marôco.

Foi o que aconteceu com Maria Abranches. Devido à indisciplina de um dos alunos, esta professora do 1.º ciclo ficou um mês em casa de baixa a tomar anti-depressivos. “A indisciplina continua a ser um dos maiores precursores de burnout nos professores”, refere Rui Gomes.

Outra das causas é a falta de envolvimento dos pais no ensino. Maria pode confirmá-lo: “A criança fazia o que queria e os pais não queriam saber”. “Tinha todos os dias, à porta da escola, a polícia por causa da indisciplina do menino. Ficava numa grande ansiedade e com palpitações”, continua a professora de 41 anos. A situação que vivia acabou por se reflectir na sua saúde – uma úlcera no estômago. “Além disso, não podiam me dizer nada na escola que eu desatava a chorar”, acrescenta. 

Se não fosse o apoio do marido e dos pais, e a obrigação que sentia de não poder falhar em relação aos filhos, Maria não teria recuperado. A rede social de apoio é “extremamente importante na atenuação do burnout”, conclui João Marôco.


Uma hora sentado reduz expectativa de vida em 21 minutos

Um estudo conclui que passar muito tempo sentado eleva os riscos de diabetes e doenças cardiovasculares além de reduzir esperança de vida

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Queensland, na Austrália, conclui que cada hora que uma pessoa passa sentada, depois dos 25 anos de idade, reduz a esperança média de vida em 21 minutos, ou seja, mais dez minutos do que fumar um cigarro. 

O responsável pelo estudo é médico e especialista em modelagem preditiva (estatísticas para fazer previsões). Jacob Veerman usou os dados de 12 mil australianos, que foram escolhidos com base num levantamento nacional sobre diabetes, obesidade e estilo de vida. Os inquiridos responderam a perguntas sobre doenças que já tiveram, frequência de exercício físico, tabagismo e hábitos alimentares. A pergunta-chave deste inquérito referia-se ao tempo que passavam sentados a ver televisão. 

O médico Veerman pretendeu, assim, chegar a um número aproximado da quantidade de horas que a pessoa passava sentada e, a partir daí, isolar o factor de risco provocado pela longa permanência de estar sentado, além de ser fumador e não praticar exercício físico.

O estudo conclui que um adulto passa seis horas diárias sentado em frente à televisão. Assim, deverá viver cerca de menos cinco anos que uma pessoa que raramente vê televisão. O mesmo se aplica àqueles que fazem exercício com regularidade.Um outro ensaio da Associação Europeia de Estudo em Diabetes considera que não é apenas o período em que a pessoa se mantém sentada em frente à TV, mas também o tempo que está sentada no trabalho. Foram feitas 18 pesquisas sobre este tema, o que levou a um levantamento de 794.577 entrevistados. 

Em entrevista ao jornal online ‘Folha de S. Paulo’, a endocrinologista da Universidade de Leicester, em Inglaterra, afirma que “um adulto passa entre 50 e 70% do seu dia sentado” e o corpo humano não tem como função estar sentado durante tantas horas. Emma Wilmot justifica que “quase todos os empregos, hoje em dia, obrigam as pessoas a ficarem sentadas em frente ao computador. Quando saem do trabalho, o que elas fazem? Jantam, vão ao cinema, lêem, vêem televisão. Ou seja, continuam sentadas”. 

O estudo desta especialista conclui que as pessoas que passam mais de sete horas diárias sentadas têm uma probabilidade de risco de desenvolver diabetes de 112%, 147% de risco de doenças cardiovasculares e 49% de probabilidade de morrer prematuramente.

Fonte: www.sabado.pt

Descoberto o gene que faz as mulheres felizes

Investigadores norte-americanos descobriram que o 'monoamina oxidade A' funciona como um gene da felicidade feminino

Descoberto o gene que faz as mulheres felizes

O trabalho de investigação é publicado esta semana na edição online da revista cientifica Progress in Neuro - Psychiatry. 

O grupo de investigadores norte-americanos coordenados pelo neurologista Henian Chen, da universidade de South Florida, em Tampa, Estados Unidos, estudou os humores de 345 indivíduos - 193 mulheres e 152 homens.

O trabalho de investigação revelou que o gene 'monoamina oxidade A', ou MAOA, para abreviar, funciona como um gene da felicidade.

O grupo de Chen recolheu as respostas com base num inquérito em que os voluntários eram convidados a fazer uma autoavaliação sobre a sua felicidade e satisfação pessoal.

Os investigadores verificaram que as mulheres com a cópia do gene obtiveram valores mais altos em relação aos níveis da felicidade. O mesmo não se revelou válido para os homens.

"Este é o primeiro gene da felicidade encontrado para as mulheres" afirmou o coordenador da investigação. "A expressão reduzida do MAOA tem sido associada a comportamentos negativos, como o alcoolismo, agressividade e uma atitude antissocial".

Henian Chen e a sua equipa descobriram que o gene produz efeitos diferentes - opostos, em homens e mulheres. Enquanto nos homens a sua expressão reduzida está associada a maior agressividade, nas mulheres o efeito é contrário. Nas mulheres, o MAOA funciona como um gene da felicidade. 

Fonte: visao.sapo.pt
Foto: Tudo quimicamente explicado...